Certa vez alguém me falou que eu era um presente, um presente a ser desembalado. E eu me senti lisonjeada e feliz. Não tinha o alcance do que significaria esse processo de “desembalar”. Já havia lido mensagens sobre pessoas que são presentes e sobre diversidades de embalagens, bem como, dos conteúdos encontrados, uma vez abertas as embalagens.
A expressão desembalar um presente parece muito simples. Basta imaginar como nos portamos quando recebemos um presente. Há quem os abrem com muita expectativa e até rasgam o papel para que seja mais rápido, e quem o faz lentamente, com a preocupação de preservar o papel e observando os detalhes.
Talvez isso não tenha muito a ver com a realidade dos relacionamentos. Mas se quisermos estabelecer uma interface, poderíamos considerar que existem pessoas que abrem os “presentes” com tanta pressa a fim de conhecer logo o conteúdo e outras que o fazem devagar, apreciando cada detalhe e com cuidado para não “rasgar” a embalagem, pois consideram-na parte do presente.
Faz pouco tempo que recebi uma carta-resposta de uma pessoa que me é muito especial e que sabe apreciar o belo. Ela me dizia que “houve um tempo em sua vida que contraiu uma dívida com os envelopes e aprendeu a tratá-los com delicadeza e muito agradecida pelo que significam: eles nos trazem cartas e os rasgamos, destruímos, maltratamos como se não fossem nada.” Achei lindo alguém dar sentido ao envelope, colocando-o como conteúdo, pois afirmava que o envelope que recebeu, não trazia somente a “ minha carta, com seu escrito, vinha também com outras lembranças, que ela viu chegar, tudo bonito e bem chegado, bem recebido”.Com isso, significara o envelope também como presente.
A partir disso, ponho a questão: Presentes e embalagens têm a ver com relacionamentos? Por que uma pessoa afirmaria que a outra é um presente a ser desembalado?Devo admitir que ainda que tenha aprendido a desembalar um presente com cuidado, preservando a embalagem e a observando em seus detalhes, compreender o significado dessa frase, faz-me pensar na resistência da embalagem? Se bem pensarmos, a embalagem é, literalmente, passiva na ação. Trata-se de um objeto sofrendo a ação do sujeito que a está “descobrindo”, desembalando. A partir disso, discorremos sobre as relações intersubjetivas. Algumas pessoas se dão gratuitamente, sem reservas, outras, contudo, têm suas resistências, suas condições, seus recônditos. Não se dão a conhecer. É necessário cuidado e tempo para que se deixem "abrir".
Com base nisso, não podemos conceber o presente como objeto e em sua função de agradar. Que paradoxo? Afinal, um presente tem a função de agradar a pessoa presenteada! Ocorre que nas relações intersubjetivas a interação é sujeito-sujeito, a ação deve ser recíproca e compartilhada. Ambos se mostram, se revelam, cada qual a seu modo. Portanto, as diferenças na forma de se revelar e de apreciar o conteúdo revelado podem comprometer a beleza da relação. A pressa de quem se dá mais facilmente e que, por isso, tem tendência de exigir o mesmo de outrem, pode rasgar o “papel de presente”.
Ha que se considerar a possibilidade de que algumas pessoas se “embrulharam”. Sua embalagem é grossa, encorpada para se protegerem de “rasgões”. Talvez porque já se mostraram e não foram apreciadas ou porque se mostraram e o deslumbre por elas foi momentâneo, tendo sido tratadas como descartáveis. Talvez, nem sequer se sentiram apreciadas o suficiente para acreditarem que valia a pena continuar a se revelar, pois depois de terem mostrado o primeiro “amassado”, sentiram-se repulsadas. Há ainda as que acreditam que não serão aceitas, pois algumas experiências as fizeram crer que eram “feias” e suas embalagens se tornaram rígidas.
Com base a tantas razões que justificam resistências nos relacionamentos, tenho observado que a experiência de se sentir aceito/a como se é, sem julgamentos e, sobretudo, de se sentir amado, tem a força de mudar conceitos e atitudes. Isso me faz acreditar que o tempo é notadamente didático. Dar-se a conhecer, ser acolhido/a e acolher é exercício de compreensão e de confiança. Requer um olhar para além da aparência. Com isso, se um presente é capaz de atrair nossa atenção na “qualidade de presente” sua beleza deve nos tocar naquilo que ele tem de essencial. E nesse caso, o essencial esta para além da embalagem.
Portanto, há que se persistir em fazer o presente acreditar que não importa a embalagem e até mesmo o conteúdo. Se um presente é belo o suficiente para nos deslumbrar, “os arranjos” são somente conseqüências da beleza que nos toca.
São Luís, 31 de Julho de 2008.
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